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Paraíso

por MC, em 23.02.15

guilhotina.PNG

 

 

Muito do mundo que a criança aprendeu, viu-o através daquela janela. Muitos dias escorreram na calmaria dos relvados largos e revolutearam no ar com as cores de Outubro. Tantas e tantas horas gotejaram na mansidão da chuva a bater nos vidros embaciados da janela de guilhotina, na melancolia cinzenta do Inverno.  Ali saboreou Verões de sol fulgurante a reverberar nas pedras brancas do imponente memorial e nas águas mansas do Tejo que aconchegavam lá ao fundo, no horizonte, os telhados da rua de baixo.

Mais tarde, quando se apaixonou pela prodigiosa arte de brincar com as palavras, cuidou muitas vezes que quem lhe escolheu o nome, à rua de baixo, deve tê-lo feito do alto daquela (agora sua) janela. Mais nenhuma razão se descortinava, matutou muitas vezes em segredo, para chamar Rua do Paraíso a tal correnteza de prédios tortos, escurecidos pelo tempo e pela fuligem, apartados por um empedrado desconjuntado de basaltos polidos e remendos de alcatrão.

Visto assim, a um universo de distância, foi um bom ponto de onde partir.

 

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publicado às 20:54

Princípio

por MC, em 11.02.15

 

No princípio desta história também havia um estendal. Não era nada sofisticado como os que agora se vêem, cheios de cromados e articulações e outros mimos da modernidade. Era um pau comprido (desconfia-se que tivesse sido cabo de vassoura numa vida passada) atravessado a espaços por furos onde corriam cordas, amarradas em pregos retorcidos cravados nas extremidades da janela. Quando havia roupa estendida, erguia-se orgulhoso, perpendicular à parede, como a proa esguia de um navio. 

A criança, sentada num pequeno banco, encostava o queixo ao parapeito e vivia aventuras maravilhosas que começavam, as mais das vezes, com aquele mastro de navio e as suas velas coloridas desfraldadas ao vento, feitas de aventais e peúgas, saiotes e blusas e demais peças. Por muito inopinadas que fossem, não apoucavam a demanda nem confinavam a imaginação, que o resto do navio cabia todo na sua cabeça, com as cordas, as tábuas corridas do convés, mais as gaivotas e os mares e os piratas e todas as sortes de monstros e gentes extraordinárias. 

 

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publicado às 23:54

Estendais

por MC, em 08.02.15

 

Gosto de estendais. Gosto da conjugação infinita de possibilidades. Aprecio estas manifestações genuínas da condição humana, como ideias ao sabor do vento. Gosto do que deixam transparecer sobre as suas pessoas. Em criança, perdia-me a observar as linhas de roupas coloridas, embrulhadas em azul celeste. Gostava de lhes imaginar vidas felizes, em mundos diferentes do meu. Este blog é isso mesmo: o meu eterno exercício de voyeurismo. Sou eu (ainda) a tentar entender os estendais dos outros. Sobretudo, sou eu (ainda) a tentar organizar o meu. São as minhas roupas a esvoaçar.

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publicado às 22:21


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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